Discalculia PDF Print E-mail

 

Um mal que torna o estudante refém dos números Na sociedade contemporânea, economia e finanças são aspectos cada dia mais comuns. A todo momento, centenas de pessoas realizam alguma transação financeira. Investimentos, empréstimos, movimentações bancárias. Ao mesmo tempo, outras milhares realizam diversas outras ações, mais simples, mas que envolvem igualmente conceitos matemáticos: fazer uma compra, calcular o tempo gasto para realizar alguma atividade, dar um troco, entre outras. Práticas simples como estas, que fazem parte do dia-a-dia de qualquer pessoa, dependem, sobretudo, do bom aprendizado da Matemática no período escolar, o que não faz parte da realidade de muitos de nossos estudantes. Na maior parte dos casos, a causa disto é a falta de estrutura das escolas e de habilidade dos professores na hora de ensinar a matéria, entre outros. Porém, para um grupo específico de alunos, há um obstáculo a mais. Estes estudantes sofrem de discalculia, um distúrbio neurológico que afeta a habilidade com números e faz com que a pessoa se confunda na realização de operações matemáticas e contagens, na assimilação de conceitos, fórmulas, sinais e sequências numéricas, entre outras ações fundamentais para a matemática no dia-a-dia.

Apesar de este ser um distúrbio ainda sem cura, os discalcúlicos podem ter uma vida normal. Para que isso seja possível, é preciso que recebam o tratamento certo durante o aprendizado escolar, o que muitas vezes são acontece. Por se tratar de um problema genético e que se desenvolve desde os primeiros anos de vida, a escola é fundamental nesse papel, juntamente com a família. Ambas devem unir esforços para o desenvolvimento das crianças e jovens da melhor forma possível. Segundo a fonoaudióloga, psicopedagoga e terapeuta familiar, Quézia Bombonatto, a discalculia, também conhecida como "Transtorno da Matemática", quando não tratada, pode fazer com que uma pessoa que tenha pós-graduação não consiga nem preencher um cheque. Por isso, o diagnóstico precoce é fundamental. "Por ser um distúrbio neuropsicológico, a discalculia só pode ser identificada por uma equipe médica. Mas os pais devem ficar atentos às dificuldades de aprendizagem dos filhos. No início da vida, qualquer pessoa tem dificuldade com cálculos. Isso é normal. Mas se o problema persistir, é preciso procurar ajuda. Além disso, a discalculia se apresenta em diversos níveis", afirma a especialista.

A dificuldade para lidar com números, quantidades e operações matemáticas também deve ser observadas em outros ambientes e situações de convívio da criança, e não somente na escola. Conforme explica a doutora em Ciências especialista em Psicologia da Infância pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Flávia Heloísa Dos Santos, tal avaliação inclui uma investigação minuciosa. "Para se determinar a discalculia é preciso analisar as experiências escolares da criança, seus aspectos emocionais e acima de tudo de seu desempenho em testes cognitivos especializados que investigam não somente o cálculo e a resolução de problemas matemáticos, mas também o conjunto de habilidades cognitivas que uma criança precisa ter para se desenvolver adequadamente, como a memória, a atenção, a linguagem, a inteligência, entre outras", explica.

Discalculia, a "prima pobre" da dislexia - Apesar de ter desdobramentos capazes de comprometer a vida escolar de um estudante, quando não tratada adequadamente, a discalculia ainda é pouco conhecida. Segundo Quézia Bombonatto, ela é uma espécie de "prima pobre" da dislexia, outro distúrbio de natureza neurológica que afeta o aprendizado por atingir as estruturas cerebrais responsáveis pela capacidade de ler e que, apesar de ter menor incidência, já é mais estudada que o transtorno da Matemática. "Isso acontece, em primeiro lugar, porque a leitura e a escrita são muito mais presentes no dia-a-dia da nossa sociedade e, em segundo, por uma questão social. A sociedade já espera que as pessoas não tenham bom rendimento em Matemática. E isso não ajuda nem um pouco a enxergar a disfunção em uma criança", comenta Quézia, que também é bacharel em Matemática e presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), a discalculia é a prima pobre da dislexia.

Um distúrbio independe do outro, porém, podem aparecer juntos. Ainda de acordo com Quézia Bombonatto, o que acontece é que, muitas vezes, os disléxicos, como têm dificuldade de ler e interpretar textos, não conseguem entender o que um problema matemático está pedindo e assim, começam a ter problemas nesta disciplina também. Para a psicóloga, estas crianças, nas aulas onde é exigida a realização de cálculos e noções matemáticas, devem ser ensinadas separadamente das demais, pois têm necessidades específicas. Já para a psicóloga Flávia Heloísa, que também fez pós-doutorado em Psicologia na Universidad de Murcia, na Espanha, em hipótese alguma se recomenda para a criança com discalculia, ou com outros distúrbios, tal isolamento. "Não se pode estigmatizar essa criança. O professor deve saber que ela realizará as tarefas mais lentamente que as demais e poderá precisar de auxílios como tabuadas, calculadoras, ou mesmo de exercícios mais estruturados. Também pode ser necessário que a criança receba algum tipo de reforço escolar ou participe de algum programa de reabilitação neuropsicológica, mas sempre paralelamente às aulas regulares", acredita.


Fonte: Folha Dirigida